A atualidade de Errico Malatesta – Maurício Tragtenberg

Retirado da revista online Espaço Acadêmico

Errico Malatesta nasceu em 1853 e morreu em 1932, tendo assistido, assim, à criação e extinção da Primeira Internacional, à formação da Segunda Internacional – que teve como carro chefe o Partido Social Democrata Alemão –, à emergência da Revolução Russa e sua burocratização e, finalmente, a ascensão do fascismo na Itália.

Essa trajetória de vida de um filho a burguesia, que largou os estudos de Medicina no segundo ano, explica porque ao longo de sua obra está sempre presente uma grande temática, a reprodução do movimento real das classe na Itália entre 1853 e 1932: o socialismo libertário.

Da Primeira Internacional, apreende a noção e auto-organização do trabalhador e de sua ação direta, que serão os elementos fundantes de sua atuação social e política. Em relação à Segunda Internacional, assume uma atitude crítica, denunciando a confusão que se estabelecera entre participação (lema da social-democracia) e incorporação ao sistema capitalista. Verifica que os “participacionistas” se convertiam nos cães de guarda do sistema exploratório e opressivo – não era por acaso, pois, que, na fase monopolista do capitalismo, em suas áreas desenvolvidas, a repressão contra os trabalhadores passava a ser feita pela social-democracia, cujo exemplo maior foi a repressão à revolução alemã de 18, com o assassinato de Liebknecht e Rosa Luxembourg.

Em relação à Terceira Internacional, Malatesta mantém a crítica clássica à burocracia emergente após 18 na URSS – já delineada por Luigi Fabbri em “Ditadura e revolução” –, quando a revolução dos operários e camponeses é capturada pelos burocratas, e o socialismo começa a ser sinônimo de planismo estatal-burocrático, onde os gestores coletivamente detêm os meios de produção em nome dos produtores.

A Comuna de Paris

Mas, sem dúvida, é a proclamação da Comuna de Paris, em março de 1871, que influenciará Malatesta em suas propostas mais amplas: auto-organização dos trabalhadores, autogestão econômico-social e política, como sinônimo de um processo de socialização. Isso porque a Comuna de Paris – nunca suficientemente estudada – é a primeira grande revolução moderna, onde o proletariado tentou a extinção do poder político. Ela representou a prática da organização social e econômica pelas massas, eleição pela população dos intermediários políticos (representantes) e econômicos (administradores), a ausência de privilégios e revogabilidade universal dos eleitos.

Isso significou a constituição de um novo modo de produção constatado por Bakunin e Marx, – pois Comuna de Paris representava um poder político em extinção. Suas instituições criadas pelos produtores significava um ponto de partida para a estruturação de um novo modo de produção com a dominação do econômico pelo social (J. Bernardo), muito longe de um planejamento da produção dependente da distribuição via Estado, o que seria apenas uma reprodução do poder político. A Comuna de Paris tentava fundir o nível político no econômico, através da extinção da esfera política. Isso, numa proposta de uma sociedade auto-institucionalizada. É dessa prática social que Malatesta estruturará seus conceitos sobre a ação direta dos produtores, auto-organização dos assalariados e a rejeição do planismo burocrático como sinônimo de “socialismo”.

Após 1874, abate-se um período repressivo na história italiana, atingindo o movimento operário, e os “internacionais” – como eram chamados os adeptos da Primeira Internacional – operários na sua maioria, sofrem perseguições de todo tipo.

A repressão leva-o a emigrar, desenvolvendo sua atividade de militante operário em vários países europeus. É o período em que polemiza duramente com Andrea Costa, que aderira à social-democracia e ao socialismo parlamentar. Mostrava Malatesta que a melhor maneira de sujeitar um povo consiste em lhe dar a ilusão de que participa de decisões.

Na Argentina participa da formação da FORA (Federação Operária Regional Argentina), que influenciará os trabalhadores de origem européia até início do século 20. Na Europa, de volta da Argentina, participa do movimento operário na Espanha, Bélgica e França, insistindo na auto-organização do trabalhador a partir do local de trabalho, como elemento fundante de sua ação político-social. Tal postura se dá em relação ao individualismo fundado por Stirner, que ainda encontrava adeptos entre os militantes libertários da época.

Os operários integrados

É através de sua polêmica com a social-democracia italiana e os adeptos do socialismo parlamentar, que Malatesta define seu perfil político e sua crítica à instituição do partido político.

Após a repressão à Comuna de Paris por Thiers, utilizando as armas que Bismarck lhe cedera para isso, desenvolvem-se como verdadeira praga partidos “bem comportados” – são partidos “operários” que surgem dos partidos “plebeus”, que deviam sua organização às velhas associações populares, fraternais e religiosas.

Após as revoluções de 1848 esses velhos partidos plebeus cedem espaço a outras instituições. Entre 1848 e 1871 os sindicatos e os conselhos constituíam elementos organizadores do operariado nascente, donde a preocupação da Primeira Internacional em articular os trabalhadores a partir de suas lutas fabris, nos sindicatos de militantes que surgiam então.

Porém, com a formação da Segunda Internacional e a difusão dos partidos socialistas parlamentares pelo mundo, aparece uma tecnocracia na constituição desses partidos “operários” – que mantêm esse nome pelo fato de integrarem os trabalhadores em suas estruturas burocráticas. Não é por acaso que o estudo-modelo sobre partido burocrático tem como sujeito o Partido Social-Democrata Alemão, a obra de Michels intitulada “Os Partidos Políticos”.

Há uma razão para o Partido Social-Democrata Alemão ter sido o modelo de partido burocrático, altamente centralizado – é que a Alemanha era o país onde a tecnocracia era mais poderosa, se constituindo em força reprodutiva do sistema capitalista. Esses partidos social-democráticos mantêm a cisão entre o econômico e o político, não integrando-os como o fizera a Comuna de Paris, razão pela qual aparecerão sob o bolchevismo na forma de partido único. Eis que Lenin, embora classifique Kaustski de “renegado”, herdou dele a concepção de partido-vanguarda que faz a felicidade da burocracia partidária na URSS e no leste europeu.

Malatesta se diferenciava de outros teóricos do socialismo libertário – como Goodwin, Proudhon, Bakunin ou Kropotkin –, que procuravam fundamentar suas premissas socialistas na razão (Goodwin), nas leis do social (Proudhon) ou no determinismo evolucionista (Kropotkin). Ele buscou explicar a validade da proposta socialista libertária a partir do movimento real da sociedade e da ação da classe trabalhadora. É desta perspectiva que os bens econômicos aparecem como fruto da “ação coletiva” dos produtores, onde a solidariedade no processo produtivo é a base da solidariedade no social e político. Assim, igualdade, liberdade e solidariedade se constituem nos fundamentos ético-políticos da proposta de Malatesta. Nessa proposta o futuro é entendido como ultrapassagem do presente, e a liberdade é tomada como um processo de ruptura com as formas de servidão econômico-social e política.

O socialismo libertário

Para Malatesta a revolução não se constituía num golpe de Estado, onde um grupo toma o poder “em nome” dos trabalhadores. Para ele, a revolução se constituía num ato de libertação, fruto de uma “vontade” sintonizada com a compreensão da conjuntura histórica específica. A proposta socialista libertária, para Malatesta, era a tradução dos valores e motivações que permanecem no plano histórico, entendido como um processo em mudança contínua. A seu ver a única lei geral, era a lei do movimento, que demonstrava a importância e também a precariedade dos sistemas fechados – quanto mais “acabados”, mais precários.

Por isso Malatesta não se permitia perfilar entre os criadores de “sistemas”, é mais uma atitude ante o real histórico, onde a exigência da auto-organização dos interessados (povo), de igualdade e combate às hierarquias sociais opressivas colocam a exigência de uma igualdade que tenha a liberdade como fundamento – pressupondo que a liberdade sem igualdade é uma mistificação, a igualdade sem liberdade é uma nova escravidão.

Para ele, a quem relatividade e contingência marcam as concepções do social, conceitos como liberdade, igualdade e fraternidade não se constituíam em noções dogmáticas, mas sim em traduções do movimento real da sociedade, que apontava à hegemonia dos trabalhadores.

O ideal emancipatório

Porém o ideal emancipatório da humanidade trabalhadora não se esgotava ao se converter em patrimônio teórico de uma minoria ilustrada. Para Malatesta, a vitória da proposta libertária se daria no momento em que seus princípios básicos se convertessem em categorias do senso comum da massa trabalhadora. Não se tratava de plasmar ideologicamente a população – o que seria a demonstração de um estranho autoritarismo – mas, através da propaganda e da ação, conquistá-la para os princípios libertários.

É essa preocupação de Malatesta em traduzir os grandes princípios libertários para a linguagem do senso comum da população que explica a forma coloquial da maioria dos seus escritos, especialmente “Entre Camponeses”, “No Café” e “Nas Eleições”.

Malatesta participara da insurreição de Bolonha de 1874, do levante camponês de 1877 em Benevento, emigrando para Londres, onde durante quarenta anos sedia sua ação político-militante. Na Argentina, onde permanecerá quatro anos, propaga as idéias libertárias entre os trabalhadores de origem italiana. Volta à Itália e é preso em 1898. Participa em 1919 da “Semana Rossa”, onde o movimento sindical dirige um processo de greve geral na Itália – sem contar porém com o apoio da CGT, o movimento morre. Preso por Mussolini em 1921, estava com 70 anos e continuava a sobreviver exercendo a profissão de mecânico e eletricista, espantando a burguesia italiana, que tinha dificuldades em enxergar naquele operário idoso e gentil o “terrível” Malatesta. Morre em 1932 em plena vigência do fascismo.

De sua fidelidade aos seus princípios fala sua via, a ele aplica-se o julgamento de Robespierre pelos historiadores: nunca se atemorizou, nunca transigiu, não se corrompeu. É um exemplo de integração de teoria e prática, raro nos dias que correm.

Fonte: http://www.espacoacademico.com.br/015/15pm_160183malatesta.htm

Cuidados e segurança: um texto sobre as UPPs

Nós, do Anarquia ou barbárie, somos absolutamente contra essa política de extrema marginalização e de terror contra o povo da favela. E, frente ao último incidente, a morte de um garoto de apenas 10 anos, postamos este texto para mostrar nosso posicionamento e fazer nosso repúdio a tal acontecimento.

Retirado do Boletim eletrônico mensal do Nu-Sol

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No Brasil, certos candidatos às eleições de 2010 lançam mão da UPP (Unidade de Polícia Pacificadora) como “sinônimo de ação que pode dar certo”.

Na América do Norte e na Europa fortalecem-se, desde 2008, as “Unidades Territoriais de Bairro (UTB)”, atualmente denominadas “Brigadas Especializadas de Terreno (BET)”, adaptações francesas da community policing, executadas em Chicago e Londres.

Autoridades governamentais, à direita e à esquerda, proclamam: “queremos uma sociedade respeitosa e não uma sociedade rígida, violenta, brutal e egoísta”!

Reconhecem que o cidadão deixa de ser uma ficção, quando o sujeito de direito caminha para se tornar o “indivíduo portador de direitos de uma igualdade formal, rumo à igualdade real”, ou seja, quando se dispõe a cuidar de si e dos outros.

Este cidadão “evoluiu” no interior das lutas de minorias, e reinscreveu o universal na pluralidade e na multiplicidade das demandasidentitárias, relacionadas umas às outras. Ele reconhece suas vulnerabilidades específicas e a interdependência das necessidades.

A expansão do pluralismo político em cada indivíduo ampliou o leque de escolhas racionais em variadas organizações da sociedade civil, para além das arregimentações partidárias.

É uma realidade neoliberal em função da cooperação e do bem comum, não apenas como sistema de governo de Estado e dos indivíduos. Todos devem cuidar de si e dos demais, porque todos dependem de algo, e para obtê-lo, de modo seguro, devem pautar suas condutas por meio da tolerância e da confiança de uns nos outros pela difusão da transparência.

A educação de cada um como capital humano, apesar da crise que eclodiu no sistema financeiro em 2008, não teve sua racionalidade abalada.

Os chamados países emergentes, como o Brasil, almejam despontar como potências do século XXI. Orientam-se com base na política participativa, na economia sustentável com responsabilidade sócio-ambiental, na variedade de direitos e em segurança modulada por cada cidadão e pelas tecnologias de informação e comunicação.

A expansão do pluralismo político propiciou o pluralismo policial, projetando o sujeito cosmopolita real.

Em poucas palavras: o súdito passou a ser cidadão e este a sujeito portador de direitos; em suma, permanece amando a sua condição e aspirando a uma “evolução” dentro da ordem.

Ele, ou ela, não se rebela contra a sujeição e amplia suas condutas como assujeitado, um amante das melhorias, na sua condição inquestionável de vida. Sobrevive como força reativa, exercitando a apatia ativa e conformando-se como um policial de si e dos outros.

É um zelador, ou melhor, um gestor que aspira conjugar o empreendedorismo de si com o empreendedorismo social, almejando a felicidade.

Chama-se isso de política de pacificação ou polícia da paz!

A UPP funciona como uma modulação da prática ditatorial contra a subversão em nome da profilaxia do meio ambiente.

A UPP incide sobre territórios devastados pela empresa-tráfico que acossa e encarcera a população local ao seu regime de governo.

A UPP combate seu inimigo preferencial e produz, por meio de uma intervenção violenta, o assombro na população acossada.

Esta responde, surpreendentemente, de maneira favorável à ação repressiva como população libertada e disponível à revitalização cuidadosa do seu território.

Agora, uma criança pode ir a uma padaria sem se assustar mais com o policial, e descrer da proteção efêmera proporcionada pelas organizações do tráfico ou das milícias.

Em pouco tempo e de maneira gradual, uma prática de governo ditatorial realiza-se como um programa democrático.

Possibilita a cooperação como restauração do amor à comunidade, fortalece a ação das ONGs, favorece o investimento de empresas e bancos, e reafirma a crença na segurança por meio da polícia do Estado, que permanecerá no local integrada à comunidade emancipada à condição de polícia de si

Quando o sujeito portador de direitos se sentir fortalecido em sua família, apto ao trabalho regulamentado, dependente e solidário aos cuidados, mais uma vez, os lucros econômicos, políticos e policiais serão maiores.

A polícia repressiva transforma-se em fomentadora da polícia comunitária composta pela totalidade dos cidadãos e dos futuros cidadãos.

É essa prática totalitária pelo seu avesso que faz da UPP, não uma metáfora, e sim o programa mais efetivo e eficiente de segurança na atualidade.

A UPP habita desde os territórios devastados até o discurso político partidário, redesenhando as práticas punitivas, a moral do castigo e a sociabilidade autoritária.

Para viver é preciso aderir ao não pode! Eis o cuidado.

Atenção: há outro perigo na esquina; querem nos fazer crer que o manto do cuidado nos protege do potencial perigo que está em cada um de nós.

Nessa sociedade, para haver segurança, todos devem ser monitorados.

Somos todos virtuais terroristas!

Isto não é só neoliberalismo, é a maneira pela qual somos educados para nos governar e governar os outros.

Configura-se uma nova subjetividade do capital humano em que cada um deve se sentir seguro de si, por depender do outro!

          Porque as pessoas não cuidam de si para serem livres?

Fonte: http://www.nu-sol.org/hypomnemata/boletim.php?idhypom=151

 

Entrevista (escrita) com Noam Chomsky – Um anarquista no MIT

Retirado do site Protopia.

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“Noam Chomsky é o culpado dessa situação, ou seja, porque ainda não temos bons programas de tradução automática. É tão brilhante, e sua teoria de gramáticas geracionais, tão boa, que por 40 anos foi usada por todo mundo nesse campo, deslocando o foco da semântica para a sintaxe”, reclama o engenheiro computacional Marvin Minsky, professor titular do Massachussets Institute of Technology, MIT. Chomsky é o tipo de pessoa que brilha mesmo quando acusado.

Mas a linguística não é seu único ramo de destaque. Como cientista político, o norte-americano é um dos intelectuais mais respeitados hoje no mundo. Notório pela perspicaz crítica à política externa norte-americana, consulta obrigatória para uma maior compreensão do capitalismo. “Com o fim da Guerra Fria, os países do terceiro mundo estão mais submissos ao poder dos EUA. Essa é a razão pelo qual os golpes militares não são mais necessários na América Latina. Hoje existem os “senados virtuais”, a dívida externa, a liberalização do capital como formas de controle. Claro que as elites latino-americanas participam de tudo isso. Elas adoram esses esquemas, sempre foi assim. A Inglaterra não dominou a Índia com tropas inglesas – as elites na Índia foram cúmplices e enriqueceram com a ocupação, enquanto o país se tornava cada vez mais miserável”, denuncia Chomsky.

Em relação ao Brasil, o pensador defende a idéia de que a dívida externa deveria ser cancelada. “98% da população não tem nada a ver com ela, quem a contraiu foram os ditadores, os grandes latifundiários e a elite”. No passado, Cuba e Costa Rica tiveram suas dívidas canceladas, pois, houve certo consenso(forçado, claro) de que se tratavam de dívidas injustas, empurradas à nação. Chomsky diz que essa é exatamente a situação dos países do terceiro mundo.

Mas esse não é o assunto da entrevista a seguir. Publicada em 1996, na edição nº 2 da revista Red & Black Revolution, gira em torno da visão do pensador sobre a ideologia dominante e suas alternativas. O pensador respondeu as perguntas de Kevin Doyle por escrito.

RBR: Em primeiro lugar, Noam, por muito tempo você tem defendido a ideologia anarquista. Muitas pessoas estão familiarizadas com a introdução que você escreveu em 1970 para o “Anarchism” de Daniel Guerin. Porém, mais recentemente, como no filme “Manufacturing Consent”, você aproveitou a oportunidade para novamente frisar o potencial do anarquismo e da ideologia anarquista. O que te atrai no anarquismo?

CHOMSKY: Eu fui levado ao anarquismo como adolescente, assim que passei a ver o mundo além de um ângulo bem fechado, e desde então, não tenho visto motivos para repensar essa distante atitude. Considero o anarquismo singularmente válido para procurar e identificar estruturas de autoridade, hierarquia e dominação, em qualquer aspecto da vida, e para desafiá-las. Ao menos que haja uma justificativa, são ilegítimas e deveriam ser desmanteladas, para aumentar o nível de liberdade humana. Isso inclui poder político, posse e administração, relações entre homens e mulheres, pais e filhos, a nossa responsabilidade no destino das futuras gerações (o imperativo moral básico atrás de qualquer movimento social, a meu ver), e por aí vai. Naturalmente, isso significa desafiar às gigantes instituições de coerção e controle: o estado, às irresponsáveis tiranias privadas que controlam a maior parte da economia doméstica e internacional, e tudo mais. Mas não apenas essas. É isso o que eu sempre entendi ser a essência do anarquismo: a convicção de que a ‘obrigação de se explicar’ é da autoridade, e ela deveria ser desmontada caso a obrigação não seja cumprida. Se eu estou dando um passeio com meus netos e eles se atiram numa rua cheia de carros, usarei não apenas autoridade mas também coerção física para impedí-los. O ato poderia ser contestado, mas acho que receberia isso com prazer. E há outros casos; a vida é um assunto complicado, nós entendemos muito pouco sobre as pessoas e a sociedade, e veredictos majestosos são, geralmente, mais uma fonte de dano do que de benefício. Mas o ponto de vista tem lógica, creio eu, e pode nos conduzir perfeitamente por um bom caminho. Além dessas generalidades, nós também passamos a olhar para situações que são justamente aonde surgem as questões de interesse e preocupação humanas.

RBR: É correto dizer que suas idéias e críticas são hoje mais amplamente conhecidas do que antes. Poderia também ser dito que suas opiniões são amplamente respeitadas. Como você acha que seu apoio ao anarquismo é recebido dentro desse contexto? Particularmente, estou interessado na resposta que você recebe das pessoas que estão se interessando por política pela primeira vez e que talvez tenham cruzado com suas opiniões. Pessoas como essas se surpreendem com seu apoio ao anarquismo? Elas se interessam?

CHOMSKY: A intelectualidade em geral, como você sabe, associa anarquismo com caos, violência, bombas, ruptura, e por aí vai. Então as pessoas são frequentemente surpreendidas quando me vêem falar positivamente do anarquismo, quando me identifico com as principais idéias. Mas minha impressão é que entre o público em geral, as idéias básicas parecem razoáveis quando as nuvens se dissipam. Claro que quando nos viramos para questões específicas – digamos, a natureza das famílias, ou como uma economia poderia funcionar numa sociedade que é mais livre e justa – dúvidas e polêmicas aparecem. Mas é assim que deve ser. A física não pode realmente explicar como a água flui da torneira para sua pia. Quando nós encaramos problemas mais vastamente complexos, de valor humano, o consenso é muito pequeno. Há muito espaço para discórdia e a especulação, tanto mental quanto empírica das possibilidades, para nos ajudar a apreender mais.

RBR: Talvez, mais que nenhuma outra coisa, o anarquismo tenha sido vítima da deturpação. Anarquismo pode significar coisas diferentes para as pessoas. Você precisa explicar, com frequência, o que é que você entende por anarquismo? A deturpação que o anarquismo sofre te incomoda?

CHOMSKY: Toda deturpação é uma moléstia. Muito desse fenômeno tem sua origem em estruturas de poder que têm interesse em evitar a compreensão, por motivos bastante óbvios. Vale a pena recordar “Principles of Government” de David Hume. Ele manifestou surpresa com o fato das pessoas sempre terem se submetido às regras ‘deles’. Conclui que “a força está sempre do lado dos governados, os governadores não têm nada para se sustentar a não ser a opinião. Então, na opinião apenas, é que esse governo está fundamentado; e essa regra se estende aos governos mais despóticos e militarizados, tão bem quanto aos mais livres e populares.” Hume era muito perspicaz e, por acaso, dificilmente um libertário, segundo os padrões da época. Ele com certeza subestimou a eficácia da ‘força’. Mas sua observação me parece basicamente correta e, particularmente, essencial para as sociedades mais livres, onde a arte de controlar a opinião é refinadíssima. Deturpação e outras formas de confundir são acessórios naturais. Então, a deturpação me incomoda? Claro, mas do mesmo modo que um clima pútrido. Ela irá existir enquanto as concentrações de poder continuarem produzindo uma espécie de classe supervisora para defendê-las. Já que elas não costumam ser muito brilhantes – ou são brilhantes apenas o suficiente para saberem que é melhor evitar a arena do fato e do argumento – se apoiam na deturpação, satanização, e outros dispositivos à mão de quem sabe que está protegido pelos diversos meios à serviço do mais forte. Nós deveríamos entender como tudo isso ocorre, e desatar da melhor maneira possível. Isso é parte do projeto de libertação – de nós mesmos e dos outros, ou mais razoavelmente, de pessoas trabalhando em conjunto para alcançar esse objetivo. Parece simplório e é. Mas apesar disso, quando o absurdo e a postura subserviente predominam, eu tenho que encontrar muitos pontos de vista sobre a vida humana e a sociedade, que não são simplórios.

RBR: E nos círculos de esquerda mais bem definidos(onde espera-se encontrar mais familiaridade com o que o anarquismo atualmente representa)? Você encontra alguma surpresa devido às suas opiniões e seu apoio ao anarquismo?

CHOMSKY: Se entendi o que quer dizer ‘círculos de esquerda mais bem definidos’, neles não há muita surpresa sobre minhas opiniões em relação ao anarquismo, pois muito pouco se conhece sobre minhas opiniões sobre qualquer coisa. Esses não são os círculos com que eu lido. Você raramente encontrará uma referência à qualquer coisa que eu diga ou escreva. Claro que isso não é inteiramente verdade, assim, nos EUA (mas raramente no Reino Unido ou qualquer outro lugar), em alguns dos setores mais críticos e independentes, que poderiam ser chamados de ‘círculos de esquerda definidos’, você pode encontrar alguma familiaridade com o que eu faço; e eu tenho amigos e associações espalhadas aqui e ali. Mas dê uma olhada nos livros e jornais, e você verá o que quero dizer. Eu não espero que o que eu escreva e diga seja melhor recebido nesses círculos do que nos clubes de faculdades ou nas redações de jornais – de novo, com algumas exceções. A questão é apenas secundária, tanto que fica difícil responder.

RBR: Muitas pessoas têm notado que você usa o termo ‘socialismo libertário’ da mesma maneira que você usa a palavra ‘anarquia’. Você vê esses termos como sendo basicamente similares? O anarquismo é um tipo de socialismo pra você? A comparação tem sido feita no sentido de ‘anarquismo é equivalente à socialismo com liberdade’. Você concordaria com esse enunciado básico?

CHOMSKY: O prefácio para o livro de Guerin que você mencionou começa com uma citação de um simpatizante do anarquismo de um século atrás, que diz que ‘o anarquismo tem uma forte defesa’ e ‘aguenta qualquer coisa’. Um grande fator disso tem sido o que tradicionalmente vem sendo denominado como ‘socialismo libertário’. Tentei explicar no prefácio e aonde quer que estive, o que quis dizer com aquilo, enfatizando que dificilmente seria algo novo; me refiro às idéias dos líderes anarquistas que citei, e que, de modo particularmente consistente, descrevem-se como socialistas ao mesmo tempo que condenam duramente a ‘nova classe’ de intelectuais radicais, que procuravam alcançar o poder no curso da luta popular para depois se tornarem a viciosa ‘burocracia vermelha’, a qual Bakunin alertou, e que geralmente é chamada de ‘socialismo’. Eu concordo, especialmente, com a teoria de Rudolf Rocker de que essas tendências(absolutamente decisivas) no anarquismo vêm da melhor porção do iluminismo e do pensamento liberal clássico, muito além do que ele descreveu. De fato, como eu tentei mostrar, elas diferem nitidamente da teoria e prática do marxismo/leninismo, das doutrinas ‘libertárias’ que são confeccionadas nos EUA e no Reino Unido em particular, de outras ideologias contemporâneas, e de todas que parecem se reduzir à defesa de uma ou outra forma de autoridade ilegítima, oferecendo, de fato, a verdadeira tirania.

A REVOLUÇÃO ESPANHOLA

RBR: No passado, quando você costumava falar de anarquismo, você muitas vezes se concentrava no exemplo da Revolução Espanhola. Para você, parecia haver dois aspectos nesse exemplo. Por um lado, a experiência da Revolução Espanhola é uma boa demonstração do ‘anarquismo em ação’. Por outro, você enfatiza que é um bom exemplo de como os trabalhadores podem se fundamentar em seus próprios esforços, usando democracia participativa. Esses dois aspectos – anarquismo em ação e democracia participativa – são apenas um e a mesma coisa para você? O anarquismo é uma filosofia para o poder do povo?

CHOMSKY: Eu sou relutante em usar polissílabos enfeitados como “filosofia” para me referir ao que aparenta ser apenas bom-senso. Também me sinto desconfortável com slogans. Os feitos dos trabalhadores e camponeses na Espanha, antes da revolução ser esmagada, foram impressionantes em diversos sentidos. O termo ‘democracia participativa’ é recente, e foi desenvolvido em outro contexto, mas certamente existem pontos de contato. Me desculpe se isso soa evasivo. Certamente é, mas isso porque eu não acho que o conceito, tanto de anarquismo quanto de democracia participativa, está claro o suficiente para eu poder responder se são a mesmo coisa.

RBR: Um dos principais feitos da Revolução Espanhola foi o passo da democracia baseada no povo. Em termos de população, estima-se que mais de 3 milhões estavam envolvidos. A produção rural e urbana foi administrada pelos próprios trabalhadores. Na sua opinião, é uma coincidência que anarquistas, notórios por sua defesa da liberdade individual, tenham tido sucesso no ramo da administração coletiva?

CHOMSKY: Absolutamente nenhuma coincidência. As tendências no anarquismo, que eu sempre achei mais convincentes, apontam para uma sociedade altamente organizada, integrando diversos formas de estruturas(área de trabalho, comunidade, e muitos outros tipos de associação voluntária), porém, controladas pelos participantes, não por aqueles em posição de dar ordens (exceto, de novo, quando a autoridade pode ser justificada, como, as vezes, é o caso em situações bem específicas).

DEMOCRACIA

RBR: Anarquistas costumam realizar grandes esforços na construção da democracia popular. Sem dúvida, eles são muitas vezes acusados de querer ‘levar a democracia à extremos’. Apesar disso, muitos anarquistas não poderiam identificar, prontamente, a democracia como um componente central da filosofia anarquista. Costumam descrever sua política de forma parecida com a do socialismo ou então como algo sobre o individual – eles são menos propensos a falar que anarquismo é democracia. Você concordaria que ideais democráticos são o ponto central do anarquismo?

CHOMSKY: O entendimento da democracia entre anarquistas costuma ser o entendimento da democracia parlamentar, conforme ela tem aparecido dentro de sociedades com profundas características repressivas. Pegue os EUA, o qual tem sido tão livre como qualquer outro país, desde o começo. A democracia norte-americana foi fundada no princípio, destacado por James Madison no tratado constitucional de 1787, de que a função prioritária do governo é ‘proteger a minoria abastada da maioria’. Desse modo, ele alertou que se a Inglaterra – a única democracia aparente de acordo com os modelos vigentes – permitisse ao povo em geral participar dos assuntos públicos, eles poderiam implementar a reforma agrária e outras ‘atrocidades’; e que o sistema americano precisa ser cuidadosamente esculpido para que tal crime seja evitado, pois os ‘direitos de propriedade’ devem ser defendidos (na verdade, devem vencer). Dentro desse contexto, a democracia parlamentária merece a crítica ácida dos libertários genuínos. E eu omiti muitas outras características nada sutis – como o escravidão, para mencionar apenas uma; ou então o salário escravo, duramente criticado por trabalhadores que não tinham sequer ouvido falar de anarquismo ou comunismo, justamente no século XIX pra frente. Leninismo

RBR: A importância da democracia popular para qualquer mudança significativa na sociedade parece ser evidente por si só, apesar da esquerda ter sido ambígua sobre isso no passado. Falo sobre a esquerda em geral – da social-democracia, mas também do bolchevismo – tradições de esquerda que, possivelmente, têm mais semelhança com o pensamento da elite do que com a verdadeira prática democrática. Lenin, para usar um exemplo bastante conhecido, era cético em relação a possibilidade dos trabalhadores serem capazes de desenvolver qualquer outra coisa além do sindicato. Pra mim, ele quis que os trabalhadores não podem enxergar além dos problemas imediatos. De modo parecido, a socialista fabianista, Beatrice Webb, muito influente no Partido dos Trabalhadores inglês, achava que os trabalhadores se interessavam apenas pelas corridas de cavalo. Qual a origem desse elitismo e quais suas conseqüências para a esquerda?

CHOMSKY: Temo que seja difícil para mim responder isso. Se o bolchevismo está incluído na esquerda, então eu poderia me separar totalmente dela. Lenin foi um dos grandes inimigos do socialismo, na minha opinião, por motivos que eu tenho colocado. A idéia de que trabalhadores estão apenas interessados nas corridas de cavalo é um disparate que não resiste a uma rápida olhada na história do trabalho ou da ativa e independente imprensa sindical, que floresceu em muitos lugares, incluindo as cidades-fábricas de New England, perto de onde eu escrevo. Sem falar no inspirador registro de batalhas travadas pelos perseguidos e oprimidos em toda a história até os dias de hoje. Pegue o mais miserável canto deste hemisfério: Haiti, visto pelos conquistadores europeus como um paraíso, foi origem de uma parte considerável da riqueza européia. Hoje está devastado, talvez de maneira irreversível. Poucos anos atrás, sob condições que poucas pessoas nos países ricos poderiam imaginar, camponeses e favelados organizaram um movimento pela democracia popular que ultrapassa tudo que eu ouvi falar. Só mesmo alguns ministros profundamente comprometidos poderiam não morrer de rir, ao ouvir os solenes discursos de intelectuais e políticos norte-americanos sobre as lições de democracia que os EUA têm a ensinar aos haitianos. Os feitos desses haitianos foram tão sólidos e apavorantes ao poder, que o povo teve que se sujeitar a outra dose de terror, cujo patrocínio norte-americano é muito maior do que as pessoas imaginam. E eles ainda não se renderam! Estão interessados apenas em corridas de cavalo? Sugiro algumas linhas de Rousseau que costumo citar: “Quando vejo multidões de selvagens inteiramente nus desdenharem a opulência européia e suportar fome, fogo, a espada e a morte para preservar sua independência, sinto que não cabe a escravos tentar entender a liberdade.”

RBR: Seu trabalho – “Deterring Democracy”, “Necessary Illusions”, entre outros – tem abordado consistentemente a função e predomínio dos ideais elitistas nas sociedades como a nossa. Você tem argumentado que dentro da democracia ocidental (ou parlamentar) há uma profunda oposição à qualquer função ou contribuição verdadeira da massa popular, para que a irregular distribuição de renda, favorável aos ricos, não seja ameaçada. Nisso, seu trabalho é muito convincente, mas algo em suas afirmações tem causado surpresa. Por exemplo, você compara a política de John F. Kennedy com a usada por Lenin. Isso, eu poderia acrescentar, tem chocado simpatizantes de ambos os lados! Você poderia discorrer um pouco sobre a validade da comparação?

CHOMSKY: Eu não equiparei, de todo, as doutrinas liberais da administração Kennedy com as leninistas. O que fiz foi listar os evidentes pontos de intercessão, particularmente, da maneira como previu Bakunin, um século antes, em seu agudo comentário sobre a ‘nova classe’. Por exemplo, eu citei passagens de McNamara sobre a necessidade de ‘aumentar o controle administrativo se pretende-se ser realmente livre’, e sobre como a sub-administração, que é a ‘verdadeira ameaça à ‘democracia’, é uma agressão irracional. Mude algumas poucas palavras nessas passagens, e nós temos a clássica doutrina leninista. Já as causas, são especialmente profundas, em ambos os casos. Sem a devida explicação sobre o que as pessoas consideram chocantes, eu não posso responder satisfatoriamente. As comparações são específicas e eu as julgo adequadamente justas. Se não, estou equivocado, e me interessaria ser esclarecido.

MARXISMO

RBR: Especificamente, o leninismo se refere à forma como o marxismo foi conduzido por Lenin. Você está separando, de modo incondicional, os tratados de Marx da particular análise que você faz de Lenin, quando você usa o termo ‘leninismo’? Você vê uma continuidade entre Marx e as atitudes de Lenin?

CHOMSKY: Os alertas de Bakunin sobre a ‘burocracia vermelha’, que instituiria ‘o pior de todos os governos despóticos’, foram feitos muito antes de Lenin, e eram dirigidos aos seguidores do Sr. Marx. Houve, de fato, seguidores de diversos tipos. Pannekoek, Luxembourg, Mattick e outros estão muito longe de Lenin, e seus pontos de vista muitas vezes convergem em elementos do anarco-sindicalismo. Korsch e outros escreveram de maneira simpática à revolução anarquista na Espanha. Existe sim, prosseguimento de Marx para Lenin, mas ele também existe em marxistas que foram ásperos críticos de Lenin e do bolchevismo. O trabalho de Teodor Shanin, anos atrás, sobre as últimas posições de Marx em relação a revolução camponesa, também é relevante. Estou longe de ser um estudioso de Marx, e não me aventuraria a qualquer julgamento sério sobre qual dessas linhas reflete o ‘verdadeiro Marx’, se é que pode haver uma resposta para isso.

RBR: Recentemente, nós obtemos uma cópia do seu livro “Notes on Anarchism”. Nele, você comenta algumas posições do ‘Marx inicial’, em particular, o desenvolvimento da idéia de alienação sob o capitalismo. Você aceita, em termos gerais, essa divisão na vida e obra de Marx: um jovem libertário socialista, e , nos últimos anos, um rígido autoritário?

CHOMSKY: O ‘Marx inicial’ se deve certamente ao ambiente em que ele vivia, podendo-se encontrar muita semelhança com o pensamento que gerou o liberalismo clássico, aspectos do iluminismo e do romantismo francês e alemão. Novamente, não estudei Marx suficientemente para pretender um julgamento final. Minha inpressão, até aonde ela cabe, é que o Marx inicial foi mais uma figura do iluminismo tardio, e o Marx posterior, um ativista altamente autoritário, um analista crítico do capitalismo que tinha muito pouco a dizer sobre alternativas socialistas. Mas isso são impressões.

RBR: Pelo que entendi, o centro de sua visão analítica é produto da idéia que você faz da natureza humana. No passado, a natureza humana era encarada como algo, talvez, regressivo, até limitado. Por exemplo, o aspecto imutável da natureza humana é muitas vezes usado como argumento de que as coisas não podem mudar realmente. É um argumento usado contra o anarquismo. Você tem uma visão diferente? Por que?

CHOMSKY: A base do ponto de vista de qualquer um é sempre algum julgamento da natureza humana, mesmo que a opinião esteja longe da perspicácia ou careça de articulação. Pelo menos, isso vale para pessoas que se consideram agentes morais, não monstros. Tirando os monstros, alguém que apoie a reforma ou revolução, estabilidade ou retorno à estágios ancestrais, ou simplesmente o cultivo do próprio jardim, tem sempre firmes convicções de que aquilo é ‘bom para as pessoas’. Esse julgamento é baseado em algum aspecto da natureza humana (a qual uma pessoa racional tentará ver o mais claro possível), admitindo que isso pode ser avaliado. Então nesse ponto eu não sou diferente de ninguém. Você está certo quando diz que a natureza humana tem sido vista como algo regressivo, mas isso deve ser resultado de profunda confusão. Minha neta não é diferente de uma rocha, uma salamandra, uma galinha, um macaco? Uma pessoa que solta tão improvável absurdo, admite que existe uma natureza humana distinta. Sobra então apenas a questão sobre o que é ela? Uma questão singular e fascinante, de enorme interesse científico e significado humano. Conhecemos uma quantia considerável sobre certos aspectos dela, mas não aqueles de maior significado humano. Além disso, sobram esperanças e desejos, intuições e especulações. Não há nada de retrógrado no fato do embrião humano ser limitado a ponto de não crescer asas, ou que seu sistema visual não funcione como o de um inseto, ou que nos falta o ‘instinto de lar’ dos pombos. Os mesmos fatores que limitam o desenvolvimento do organismo também capacitam-no para atingir uma estrutura rica, complexa e altamente articulada. Basicamente, fatores, comuns a todos, que habilitam capacidades notáveis. Um organismo desprovido dessa estrutura intrínseca e determinante – que, claro, terá um desenvolvimento radicalmente limitado – seria algum tipo de criatura amebóide, lamentável (mesmo se pudesse sobreviver). A área e os limites do desenvolvimento estão sistematicamente catalogadas. Pegue, por exemplo, a linguagem. Uma das poucas capacidades específicas humanas que se conhece bastante. Nós temos razões muito fortes pra acreditar que todas as línguas humanas são muito parecidas; um cientista marciano nos observando concluiria que há apenas uma linguagem, com pequenas variações. O motivo é que o aspecto da natureza humana, que possibilita a consolidação de uma linguagem, permite opções bastante restritas. Isso é limitação? Claro. Isso é liberação? Claro, também. São essas restrições que possibilitam um rico e intrincado sistema de expressão do pensamento, se desenvolver de maneiras parecidas; baseadas em experiências rudimentares, dispersas e variadas. E sobre o problema das diferenças biologicamente determinadas entre as pessoas? Que existem, não há dúvida; e é um motivo de alegria, não de medo ou lamentação. A vida entre clones não seria adequada, e, uma pessoa equilibrada irá apenas se alegrar com o fato de outras possuírem habilidades exclusivas. Isso deveria ser básico. O que geralmente as pessoas acreditam em relação à raça é realmente muito estranho, para mim. A natureza humana, o que quer que seja isso, favorece o desenvolvimento de formas de vida anarquista? Desfavorece? Nós não sabemos o suficiente para responder nem uma, nem outra. Essas são questões para a experimentação e a descoberta, não discursos vazios.

FUTURO

RBR: Antes de terminar, eu queria lhe perguntar resumidamente sobre alguns fatos que estão ocorrendo na esquerda. Eu não sei se é assim nos EUA, mas aqui, com a queda da URSS, teve início um certa desmoralização da esquerda. Não que as pessoas fossem amáveis patrocinadoras do que houve na URSS, mas, há um sentimento generalizado de que a queda da URSS arrastou também o ideal socialista. Você tem topado com esse tipo de desmoralização? Qual a sua reação?

CHOMSKY: Minha reação ao fim da tirania soviética foi parecida com o que senti com a destruição de Hitler e Mussolini. Em todo caso, é uma vitória do espírito humano. Isso deveria ser especialmente bem-vindo para os socialistas, já que um grande inimigo do socialismo finalmente caiu. Como você, eu fiquei intrigado em ver como as pessoas ligadas à esquerda – inclusive aquelas que se consideram anti-Stalin/Lenin – foram desmoralizadas com o colapso da tirania. O que isso revela é que elas estavam mais profundamente associados ao Leninismo do que imaginavam. Há, contudo, outros motivos de preocupação em relação ao fim desse sistema tirânico e brutal, que era tão ‘socialista’ quanto ‘democrático’ (lembre-se que Ele dizia ser os dois; a última característica foi ridicularizada no Ocidente, enquanto que a primeira foi avidamente engolida, como se fosse um defeito do socialismo – um dos muitos exemplos do serviço que os intelectuais ocidentais têm prestado ao poder). Uma desses motivos tem a ver com a natureza da guerra fria. Na minha opinião, ela foi, em grande parte, um caso específico do ‘conflito Norte-Sul’, usando o eufemismo corrente. O leste europeu tem sido o verdadeiro ‘terceiro-mundo’, e a Guerra Fria a partir de 1917 não tem a menor semelhança com as tentativas de outras partes do ‘terceiro-mundo’ seguirem caminho próprio, embora nesses casos, diferenças de proporção deram ao conflito vida própria. Por essa razão, foi apenas lógico aguardar o leste europeu retornar devidamente à condição anterior; podia-se esperar que certas partes do leste, como a República Tcheca ou a Polônia Oriental, fossem restituídas, enquanto outras voltam à função tradicional; a ex-Nomenklatura se tornando a elite padrão do terceiro-mundo (com a aprovação da corporação de estados ocidentais, que geralmente prefere isso à alternativas). Essa não é uma boa perspectiva e ela tem levado à imenso sofrimento. Outro motivo de preocupação tem a ver com a questão do retrocesso e do não-alinhamento. Grotesco como o império soviético foi, sua existência oferecia certo espaço para o não-alinhamento, e por razões puramente cínicas, ele as vezes fornecia assistência às vítimas do ataque ocidental. Essas alternativas não existem mais, e o sul está sofrendo as consequências. Um terceiro motivo tem a ver com o que a imprensa empresarial chama de ‘os trabalhadores ocidentais mimados’ e seus ‘luxuosos estilos de vida’. Com grande parte da Europa Oriental retornando ao isolamento, proprietários e empresários têm novas e poderosas armas contra a classe trabalhadora e os pobres em geral. A General Motors e a Volkswagen podem transferir a produção não apenas para o México e Brasil (ou no mínimo ameaçar, o que no geral é a mesma coisa), mas também para a Polônia e Hungria, aonde podem encontrar mão de obra adequada por uma fração do custo. Eles estão radiantes com isso, o que é compreensível, dadas as condições. Nós podemos aprender muito sobre o que foi a Guerra Fria (ou qualquer outro conflito) olhando quem está feliz e quem está infeliz ao seu término. Por esse critério, os vitoriosos da Guerra Fria incluem as elites ocidentais e a ex-Nomenklatura, agora ricos num ponto além de seus sonhos mais selvagens, e os perdedores incluem grande parte do população do leste junto com os trabalhadores e os pobres do oeste, tanto quanto os setores populares do sul que tem procurado um caminho independente. Idéias desse tipo tendem a causar histeria entre intelectuais ocidentais, quando eles sequer entendem, o que é raro. Isso é fácil de demonstrar. É também compreensível. As observações são justas, e subvertem o poder e o privilégio; logo, histeria. No geral, as reações de uma pessoa honesta ao final da Guerra Fria serão mais complexas do que simplesmente curtir o colapso de uma tirania brutal, e as reações que prevalecem encobrem hipocrisia extrema, na minha opinião.

CAPITALISMO

RBR: Em muitos sentidos, a esquerda hoje se encontra novamente ao seu ponto de origem no último século. É desse modo que ela encara um tipo de capitalismo que é reinante. Hoje parece haver enorme consenso, maior que em qualquer época da história, de que o capitalismo é a única maneira válida de organização econômica, isso apesar do fato do bem-estar não ser extenso como o fenômeno. Nesse cenário, alguém poderia argumentar que a esquerda é insegura na questão de como avançar. Como você encara a época atual? É uma questão de ‘volta as origens’? O esforço deveria ser no sentido de buscar a tradição libertária do socialismo e enfatizar os ideais democráticos?

CHOMSKY: Isso é, quase sempre, propaganda, na minha opinião. O que é chamado ‘capitalismo’, basicamente, é um sistema de mercantilismo corporativo, com enormes e abundantes tiranias privadas irracionais exercendo vasto controle sobre a economia, política, vida social e cultural; operando em íntima associação com países poderosos que intervêm maciçamente tanto na economia interna como internacional. Infelizmente, isso é verdade em relação aos EUA, contrariando a ilusão. Os ricos e privilegiados não estão mais com a vontade de encarar a disciplina do mercado como no passado, embora considerem isso adequado para a população em geral. Citando só alguns exemplos: a administração Reagan, aquela que tirou enorme proveito da retórica do livre-mercado, foi também a mais protecionista da história norte-americana do pós-guerra – hoje, superam todas os outros países juntos. Newt Gingrich, quem guia a atual ‘cruzada’, representa uma região riquíssima. Recebe mais subsídios federais do que qualquer região suburbana no país, além do próprio sistema federal. Os ‘conservadores’ que estão pedindo o fim da merenda para crianças necessitadas também estão pedindo um aumento de verbas para o Pentágono, as quais foram estabelecidas no final de 1940 e ainda são as mesmos porque, como a imprensa empresarial foi gentil o bastante para nos dizer, a indústria de tecnologia de ponta não pode sobreviver numa ‘economia pura, competitiva, não-subsidiada e livre’, e o governo deve ser seu ‘benfeitor’. Sem o ‘benfeitor’, os eleitores de Gingrich seriam trabalhadores pobres (se tivessem sorte), não haveria computadores, eletrônicos em geral, indústria aérea, metalurgia, automação, etc. Anarquistas, de todos os povos, não deveriam se deixar levar por essas fraudes clássicas. Mais do que nunca, as idéias libertárias socialistas são relevantes, e a população está aberta a elas. Apesar da gigantesca corporação de propaganda para as massas, fora dos círculos instruídos, o povo ainda mantém muitas das suas posições tradicionais. Nos EUA, por exemplo, mais de 80% da população vê o sistema econômico como ‘injusto por natureza’ e o sistema político como uma fraude, que serve ‘interesses específicos’, não ao povo. A maioria absoluta pensa que os trabalhadores têm muito pouca voz ativa nos assuntos públicos (o mesmo na Inglaterra), que o governo tem a responsabilidade de dar assistência às pessoas necessitadas, que investimentos em educação e saúde deveriam ter prioridade em relação à cortes no orçamento público, que as atuais propostas republicanas correndo pelo congresso beneficiam os ricos e lesam o povo, e por aí vai. Intelectuais podem contar outra história, mas não é muito difícil encontrar os fatos.

RBR: Num ponto, as idéias anarquistas tem sido justificadas pelo colapso da União Soviética – as profecias de Bakunin têm-se verificado corretas. Você pensa que os anarquistas devem se encorajar com essa situação, com a coerência da análise de Bakunin? Os anarquistas deveriam encarar o futuro com maior segurança em suas idéias e história?

CHOMSKY: Eu acho, no mínimo espero, que a resposta está implícita na questão. Eu creio que a era atual pressagia algo de ameaçador, e traz grande expectativa. O que acontecerá depende do que fazemos com as oportunidades.

RBR: Por último, Noam, um outro tipo de questão. Nós temos um pouco de Guinness separado para você aqui. Quando você virá beber?

CHOMSKY: Mantenha o Guinnes pronto. Acho que não vai demorar muito. Eu estaria aí amanhã, se pudesse. Nós (minha esposa me acompanhou, coisa rara nessas constantes viagens) tivemos momentos maravilhosos na Irlanda, e adoraríamos voltar. Por que não voltamos? Não te incomodarei com os detalhes sórdidos, mas a necessidade é imensa e cresce cada vez mais – um reflexo das situações que tenho tentado descrever.

Fonte: http://pt-br.protopia.wikia.com/wiki/Um_Anarquista_no_MIT

Carta de Piotr Kropotkin a Vladimir Lenin

Retirado do site Anarkio.net

Peter_Kropotkin_circa_1900

Ao retorno de Kropotkin para Rússia depois de revolução, Lenin aproximou-se a fim de converte-lo ao bolchevismo.
Ao início da revolução como muitos anarquistas, Kropotkin manteve algum respeito aos bolchevistas, que logo se desfez pela postura totalitária bolchevique e como estavam construindo uma ditadura sobre o mando de Lenin, sem se importar com o próprio povo que era mais revolucionário que os próprios bolcheviques.
Diante dessa situação, Kropotkin escreveu a Lenin o que se segue:

“Vivendo no centro de Moscou, você não pode conhecer a verdadeira situação do país. Teria de deslocar-se às províncias, manter estreitos vínculos com as pessoas, compartilhar seus desejos, trabalhos e calamidades; com os esfomeados – adultos e crianças – suportar os inconvenientes sem fim que impedem a obtenção de provisão para um mísero lampião … E as conclusões a que chegaria, poderiam ser resumidas numa só: a necessidade de abrir caminho para condições de vida mais normais. Se não o fizermos, esta situação nos conduzirá a uma sangrenta catástrofe. Nem as locomotivas dos aliados, nem a exportação de trigo, algodão, cobre, linho ou outros materiais dos quais temos enormes necessidades poderão salvar a população.

Em vez disso fica uma verdade: ainda que a ditadura de um partido constituísse um meio útil para combater o regime capitalista – o que duvido muito – , esta mesma ditadura seria totalmente nociva para a criação de uma ordem socialista. O trabalho, necessariamente, tem de constituir-se na base das forças locais, mas até agora, isto não ocorre nem é estimulado por nenhum lado. Em seu lugar se encontram, a todo instante, individualidades que desconhecem a vida real e cometem os maiores erros, ocasionando a morte de milhares de pessoas e arruinando regiões inteiras.
Sem a participação das forças locais, sem o trabalho construtivo de baixo para cima, executado pelos trabalhadores e todos os cidadãos, a edificação de uma nova vida é impossível.
Uma obra semelhante poderia ser empreendida pelos sovietes, pelos conselhos locais. Mas a Rússia, devo enfatizar, é uma república soviética apenas no nome. A influência e o poder dos homens do partido, que são frequentemente estranhos ao comunismo – os devotos da ideia estão sobretudo instalados aí no centro – têm aniquilado a influência verdadeira e a força daquelas instituições que muito prometiam: os sovietes. Repito: não há mais sovietes na Rússia, mas somente comitês do partido que fazem e desfazem. E as suas organizações padecem de todos os males do funcionalismo.
Para sair da desordem atual a Rússia deve retomar o espírito criador das forças locais que, asseguro, são as únicas capazes de multiplicar os fatores de uma nova vida. Quando antes se compreender isto, melhor! As pessoas se disporão a aceitar mais facilmente as novas formas de organização social. Entretanto, se a situação atual se prolongar, a mesma palavra socialismo se converterá numa maldição, como ocorreu na França com a ideia igualitária durante os quarenta anos que seguiram ao governo dos jacobinos.”

Piotr Kropotkin – Dimitrov, 04 de março de 1920
Da Enciclopédia Anarquista.

Fonte: http://anarkio.net/index.php/arti/259-carta-kropotkin-lenin

Christiania: a prova de que anarquia não é utopia

anarquiaRetirado do www.nodo50.org

Christiania: A Lenda da Liberdade No coração gelado do capitalismo europeu, na fria Copenhagen, Dinamarca, uma comunidade de 10 mil pessoas vive num outro compasso. Cristiania não tem prefeito, não tem eleição e funciona sem governo, sem imposição de leis que controlem a organização social. A lenda da cidade-livre da Dinamarca é real: inspirada no Anarquismo, Christiania resiste há mais de 20 anos, inventando um jeito novo de conviver com os problemas da vida comunitária. Limpeza das ruas, rede de esgoto, manutenção dos serviços básicos, tudo é decidido e feito a partir de reuniões entre os moradores da cidade.

Eles se definem como uma comunidade ecologicamente orientada, com uma economia discreta e muita autogestão, sem hierarquia estabelecida e o máximo de liberdade e poder para o indivíduo. Uma verdadeira democracia popular direta, onde o bom senso e o diálogo substituem as leis. No Brasil, poucos conhecem a história da cidade-livre. O TESÃO vai contar, com exclusividade, a lenda da liberdade.

Christiania começou a escrever sua história em 1971. Foi a partir das idéias de um jornal alternativo, o Head Magazine, que um grupo de pessoas, de idades e classes sociais variadas, decidiu ocupar os barracos de uma área militar desativada na periferia de Copenhagen. Era o início de uma luta incansável contra o Estado. A polícia tentou várias vezes expulsar os invasores da área, mas sem sucesso. Christiania virou um problema político, sendo discutida no parlamento dinamarquês. A primeira vitória veio com o reconhecimento da cidade-livre como um “experimento social”, em troca do pagamento das contas de luz e água, até então a cargo dos militares, proprietários da área. O Parlamento decidiu que o experimento Christiania continuaria até a conclusão de um concurso público destinado a encontrar usos para a área ocupada.

Em 73 houve troca de governo na Dinamarca e a situação de radicalizou: o plano agora era expulsar todos e fechar o local. O governo decretou que a área seria esvaziada até o dia 1º de abril de 1976. Na última hora, o Parlamento decidiu adiar o fechamento de Christiania. A população da cidade-livre tinha se mobilizado para o confronto com o Estado, mas a guerra não aconteceu. O dia 1º de abril tornou-se o dia de uma grande manifestação da Dinamarca Alternativa. Ao longo dos anos, a cidade-livre aprimorou sua autogestão: casa comunitária de banhos, creche e jardim de infância, coleta e reciclagem de lixo; equipes de ferreiros para fazer aquecedores a lenha de barris velhos, lojas e fábricas comunitárias de bicicletas.

A década de 80 foi marcada pelas drogas. Em 82, o governo começou uma campanha difamatória contra Christiania: a cidade-livre era considerada o centro das drogas do Norte da Europa e a raiz de muitos males. A comunidade teve então que organizar programas de recuperação de drogados e expulsar comerciantes de drogas pesadas, como a heroína. O mercado de haxixe continua funcionando normalmente. O governo dinamarquês nunca deixou Christiania em paz, Vários planos foram elaborados visando a “normalização e legalização” da área.

Em janeiro de 92, finalmente um acordo foi assinado. Christiania já tinha mais de vinte anos de independência e provara ao mundo que é possível viver em liberdade. Mesmo com o acordo, o governo ainda tenta controlar a cidade-livre. A resposta veio no ano passado, com o lançamento do Plano Verde, onde os moradores de Christiania expressam sua visão de futuro e que rumos tomar. A lenda de Christiania continua sendo escrita.


Christiania: uma cidade sem governo

Christiania II: Uma Cidade sem Governo Christiania tem provado ao mundo que é possível viver numa sociedade sem autoridade constituída, sem delegação de poder através de mandatos e eleições. A cidade-livre da Dinamarca criou um experimento social definitivo contra a idéia dominante de que a humanidade se auto-destruirá se não existir um controle sobre a liberdade individual.

Os habitantes de Christiania decidiram correr o risco de andar na contra-mão da história. Para eles, o governo, seja lá qual for, e seus mecanismos de administração pública são sinônimos de burocracia, abuso de poder e corrupção.

Vivendo sem a necessidade de leis que controlem a organização social, cada morador da cidade livre tem que fazer sua parte enquanto cidadão e confiar que todos farão o mesmo. É uma nova ética de convivência, baseada na honestidade e na solidariedade.

Em 23 anos de existência, a cidade-livre sempre esteve associada a rebelião contra a ordem estabelecida e experimentando novos meios de democracia e formas de autogestão da administração pública. Christiania se organiza em vários conselhos, onde todos os moradores têm direito a opinar e discutir os problemas comunitários. As decisões não são feitas por votação, mas sim através do consenso. Isso significa que não é a maioria que decide e sim que todos tem que estar de acordo com as decisões tomadas nas reuniões. Às vezes, contam-se os votos somente para se ter uma idéia mais clara das opiniões, mas essas votações não tem nenhum significado deliberativo, não contam como uma solução para os problemas da comunidade. Christiania é dividida em 12 áreas, cada uma administrada pelos seus moradores, para facilitar o funcionamento dos serviços básicos. As decisões tomadas sempre por consenso podem parecer difíceis para nós, brasileiros acostumados ao poder da maioria sobre a minoria (pelo menos, é assim que se justificam os defensores das eleições).

Mas para os habitantes da cidade-livre, o consenso só é impossível quando existe autoritarismo, quando alguém tenta impor uma opinião sem dar abertura para que outras idéias apareçam e até prevaleçam como melhor solução. A experiência tem ensinado aos moradores de Christiania que cada reunião deve discutir só um assunto, principalmente na Reunião Comum, que decide sobre os problemas mais importantes da comunidade. E, contrariando o pessimismo dos que não conseguem imaginar uma vida sem governo institucional, a utopia está dando certo: a vida comunitária de Christiania preserva a liberdade individual e constrói uma eficiente dinâmica de relacionamento social, livre do autoritarismo e da submissão. A cidade-livre vive o anarquismo aqui e agora.


Ação Direta

Os moradores da Christiania fazem questão de ser uma pedra no sapato do capitalismo. Eles não se contentam apenas em incomodar os valores tradicionais da sociedade européia com a vida alternativa que levam. Christiania também desenvolve várias atividades com o objetivo de contestar o sistema capitalista e divulgar as idéias anarquistas.

Durante os primeiros anos, a cidade-livre se tornou conhecida por suas ações no teatro e na política. E quem conseguiu maior sucesso nessa área foi o grupo Solvognen. Uma de suas ações diretas mais famosas foi em 1973, quando a OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), uma espécie de braço armado dos Estados Unidos na Europa, realizou um encontro de cúpula em Copenhagen. Inspirados no programa de rádio “Guerra dos Mundos” de Orson Welles, que simulou uma invasão de marcianos colocando em pânico a população norte-americana na década de 40, centenas de pessoas, lideradas pelo grupo de teatro de Christiania, fizeram parecer que um exército da OTAN tinha ocupado a Rádio Dinamarca e outros pontos estratégicos da cidade. A impressão que se tinha era que a Dinamarca estava ocupada por forças estrangeiras. Durante várias horas, o país inteiro ficou em dúvida se a invasão era teatro ou realidade. A ação foi uma dura crítica a intervenção dos Estados Unidos na vida dos países europeus.

O Solvognen também usou a critividade para contestar o comércio da maior festa do cristianismo. Em 1974, o grupo organizou o primeiro Natal dos Pobres da Dinamarca. Milhares de presentes foram distribuídos por um batalhão de Papai Noéis. Detalhe: os presentes eram artigos roubados das lojas de Copenhagen. Resultado: foram todos presos, mas o escândalo ganhou as manchetes dos principais jornais da europa, com fotos de dezenas de Papais Noéis sendo carregados pela polícia. Até hoje o Natal dos Pobres continua sendo organizado como uma tradição e todo ano aproximadamente 2 mil pessoas recebem uma grande ceia em Christiania. Vote Nulo.

Fonte: https://www.nodo50.org/insurgentes/textos/autonomia/09christiania.htm

Preconceito lingüístico: uma introdução sobre a língua e relações de poder na sociedade

Neste texto, pretendo tratar de uma discussão pouco realizada. Embora conste na declaração de direitos humanos o direito à língua, essa forma de opressão é bastante ignorada pela esquerda, sendo restrita às reivindicações de acadêmicos da lingüística.

Não pretendo, entretanto, me aprofundar nesse assunto tão amplo, mas apenas trazer breves explanações introdutórias para a divulgação desse assunto.

letras

  1. A língua e o indivíduo

Por muito tempo se acreditou que a língua fosse um instrumento do ser humano usado para comunicação. Essa visão, apesar de muito difundida, é reducionista e simplista. A língua possui uma ligação muito mais complexa com o indivíduo.

Chomsky, na minha opinião o maior lingüista que já pisou nessa terra, trouxe uma visão diferente para a relação entre língua e sujeito, que transcrevo a seguir: “[…] a linguagem humana é livre de controle de estímulos e não serve a uma função meramente comunicativa, mas é antes um instrumento para a livre expressão do pensamento e para a resposta apropriada às novas situações. […] O resultado é uma linguagem humana que serve primordialmente como órgão do pensamento, como meio de chegar ao pensamentos reflexo e só secundariamente serve à finalidade de comunicação social”. Em suma, Chomsky concebe a língua como algo inato à natureza humana, isto é, geneticamente determinado à raça humana; é algo intrínseco a nós, que nos diferencia dos animais, nos ajuda a construir o pensamento e o mundo subjetivo. A língua nos constitui.

Para que melhor seja ilustrado, imagine que você, leitor, está numa cabine escura e começa a ouvir uma voz que narra uma história. A partir daquela voz, é possível deduzir sexo, idade, grau de escolaridade, classe social, tribo urbana, cor etc. do falante. A língua é uma espécie de cartão de visitas. Se tivermos isso em mente, começaremos a entender que a repulsa por um modo de falar nada mais é que uma repulsa pelo tipo de indivíduo que a usa. Chamar um modo de falar de “errado” é chamar seu falante também de errado; é não lhe garantir existência ou relevância. Por isso se deve considerar amplamente tal discussão, pois, ainda que muitos ignorem, é uma forma de opressão contundente.

  1. As variações lingüísticas

Este autor que lhes escreve é um recifense. Se o leitor morar, por exemplo, no Rio Grande do Sul, com certeza terá uma maneira de falar diferente da minha. Muitas palavras terão uma pronúncia bastante diferente, como “sal” ou “tia”. Também conhecerá palavras que me são bastante estranhas. Pois bem, essas diferenças dentro de uma mesma língua se chamam variação lingüística. Essa variação não se dá apenas em relação à região onde vive o falante, mas também em relação à classe social, sexo, idade, entre outros fatores.

Maurizio Gnerre, em seu livro Língua, escrita e poder, diz que uma variante vale tanto quanto vale seu falante na comunidade. Observe, no exemplo a seguir, como esse preconceito é discreto: “tia” em São Paulo é dito com som de “tch” (como em tchau). Isso é completamente aceito, mesmo que nas demais localidades se pronuncie um “t” diferente (como o de touro). Em contrapartida, quando algum falante ouve a variação “tchurma”, ri e zomba sem dificuldade. Isso se dá porque “tchurma” é usado pelas classes mais baixas da sociedade, mesmo trazendo uma variação de som igual à paulista. Os exemplos não são escassos e podem ser observados diariamente. O preconceito lingüístico, deve-se frisar, não é lingüístico, mas social. Só é considerado errado aquilo que é típico das minorias.

  1. Gramática tradicional

A gramática tradicional (doravante GT) constitui uma compilação de regras do “bem dizer”. É uma espécie de guia de como usar sua língua. Possui o objetivo de prescrever regras a serem seguidas no uso da língua. A GT, que a priori estava relacionada à língua escrita, se estende à modalidade oral e a qualquer situação comunicativa. Se sustenta, também, no mito de que a língua é um caos.

A primeira gramática prescritiva no ocidente surgiu na Grécia antiga, ainda com o mito da existência de uma língua-mãe e ideal, criada por um adão mítico, que possuía o real significado das coisas, mas esse valor foi se perdendo pelo tempo (proposta de Platão). Essa gramática contemplava a variante falada pelos usuários cultos da aristocracia ateniense; desde já seu caráter opressor pode ser visto. Essa tradição foi até Roma, onde surgiu o termo “barbarismo”, para designar os “erros” cometidos pelos bárbaros que utilizavam o latim (denominado vulgar). As regras, principalmente ortográficas, são extremamente arbitrárias e ambíguas. Por que o som “s” é representado por tantas letras (a saber: x, c, ss, ç, s, xc, sc)?

A GT guarda em sua essência um caráter discriminatório, legitimador da variante de prestígio social. Quando dizemos que tal coisa é errada porque na GT é dito algo contrário, estamos, automaticamente, dando validade a essa opressão.

Também é preciso lembrar-se do prestígio da escrita sobre a fala, mas isso é assunto para outro texto.

  1. A gramática interna

Um mito de que a língua é um caos, sem regras definidas e que pode acabar caso não conte com a ajuda dos bondosos Pasquales é bastante difundido. A isso não é muito difícil se opor, pois basta lembrar de que pessoas sem nenhuma escolaridade conseguem se comunicar normalmente em sociedade. É preciso entender que a língua já possui regras internalizadas pelos seus falantes. Ela não funciona em meio a um caos, mas segue regras rígidas. E, na verdade, estudos recentes apontam que a língua dita “errada” é mais regular e lógica que a língua gramatical, cujas regras e exceções já se perderam no tempo.

Qualquer falante responderá que frases como (1) não lhe fazem sequer sentido, assim como jamais produzirá uma semelhante.

(i) para foram meninos o casa.

Tal fato apenas corrobora que já possuímos regras internalizadas que regem a língua. Essas regras, como se sabe, não são rígidas e estão sempre em mudanças, assim como tudo o que é natural e humano. No caso de (II), por exemplo, a mudança decorre de uma economia lingüística.

(ii) Os menino foi pra casa.

Sabemos que no português o determinante (artigo) traz as informações de gênero e número do substantivo. As flexões ocorrem primeiramente nele. Tal fato se comprova quando qualquer falante compreende que em (II) mais de um menino foi para casa. A queda do “s” plural se dá pela redundância na estrutura sintática. O falante não sente mais necessidade de marcar o substantivo no plural porque já o faz no determinante e assim é entendido o que pretende expressar.

Essa mudança não se dá no meio individual, mas no meio social.

Podemos concluir, então, que as mudanças estigmatizadas não possuem nada de grotesco ou ignorante; são, na verdade, câmbios regulares que aprimoram a capacidade comunicativa da língua.

  1. Vale tudo?

Um dos argumentos falaciosos utilizados por quem critica tais fatos é de que se nada é errado, se não houver um padrão, ninguém se entenderá mais. Um astrólogo conhecido por dar palpites na filosofia dá a entender que os que não possuem o domínio da norma culta são preguiçosos. Ele diz que na Espanha e na França não há esse tipo de problema porque as crianças são, desde cedo, iniciadas na leitura.

O primeiro argumento mostra-se incorreto em dois pontos: nunca se defendeu o fim da GT e as variações não podem ser controladas.

O que se defende é o conhecimento dos contextos comunicativos. Em contextos formais a língua deve ser formal, isto é, deve seguir a norma culta. Já em contexto informal, a língua pode flexibilizar essas regras sem nenhum problema. Ninguém é obrigado a escrever no estilo acadêmico. É até estranho quando alguém fala de modo pomposo numa conversa espontânea de amigos. Pede-se apenas que essas situações sejam compreendidas e que, em caso de desvio, o falante não seja zombado como o é hoje em dia. Pede-se, também, que não se estigmatizem formas características da língua das minorias, por motivos amplamente citados acima.

Outro ponto a ser observado é que, no fim das contas, cada um fala de seu modo e nenhuma gramática poderá conter essas variações. Entretanto, faz-se necessário, por questões pragmáticas, que haja um padrão a ser seguido na escrita. Repito: nunca se defendeu o fim da gramática.

Sobre os casos na Espanha e França, fica mais do que claro que isso é pura ingenuidade ou má fé. Só quem não conhece a realidade desses países pensa assim. Na frança, há muito tempo atrás, já se falava em “fim do francês”. Na Espanha, bastam apenas alguns minutos de conversa e verá que os desvios gramaticais são bastante comuns, assim como o preconceito.

  1. Considerações finais

Como pôde ser observado, os pontos dessa discussão foram expostos de forma bastante superficial, para que sirva apenas como uma introdução ao assunto. Expor todas as reflexões contidas nesse tema tão vasto seria extremamente cansativo e impossível para apenas um texto. Lembro, porém, que virão outros textos, com a mesma problemática, que focalizarão e aprofundarão o leitor em outros tópicos diversos da relação entre língua e sociedade. Por ora é só. Este autor se despede e agradece a atenção.

Errico Malatesta: o Lênin da Itália?

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Trecho do livro La Vida de Malatesta de Luigi Fabbri, originalmente publicado por Salir Del Ghetto, no Blog Noticia&Anarquia.
Texto original: http://noticiasyanarquia.blogspot.com.br/2014/09/errico-malatesta-el-lenin-de-italia.html

Sobre a atitude Malatestiana em relação ao problema da violência, devo acrescentar alguma outra coisa que contribuirá para iluminar melhor a figura do homem. Mais adiante, tratarei de expor ordenadamente as idéias de Malatesta e, portanto, também as relativas à violência. Aqui me limito a trazer o gérmen de seu pensamento a respeito: o de que ninguém tem direito de impor a força, com violência ou com ameaça de violência, aos outros, sob nenhum pretexto (nem sequer com o de lhes fazer o bem), as próprias ideias, o modo de viver e de se organizar, os sistemas, as leis etc. E disso deriva a lógica consequência do direito dos povos e dos indivíduos a se rebelarem contra os governos e os patrões, que, em suma (dizia), é um direito de legítima defesa contra as imposições coercitivas dos segundos, que exercem sobre os primeiros sua opressão e exploração por meio da violência e com ameaça de violência ou, o que dá no mesmo, com a pressão da fome. Daqui a necessidade da violência revolucionária contra a violência conservadora da atual organização política e econômica da sociedade.

Malatesta não separava, entretanto, a necessidade do uso de violência de sua premissa da negação da violência coercitiva – ao contrário do que fazem todos os revolucionários -. Não achava sequer útil, inclusive julgava ser o pior mal, violentar a liberdade alheia para submetê-la à própria, aos próprios métodos, à própria disciplina específica. A revolução deve libertar o povo de todas as imposições governamentais e patronais, não lhe criar imposições novas. E a mesma liberdade para todos reclamava desde sempre, seja na órbita do movimento revolucionário, seja nas relações com o ambiente externo. A revolução se faz, não poderia ser de outro modo, com a força, mas não pode ser feita pela força.

Mas essas ideias se enquadram tão pouco e mal na lenda do Malatesta chefe de complôs e de tumultos, a quem mais acima fiz em parte alusão, que a sua chegada a Itália, em 1919, não foram poucos os que em todo campo se apressaram para ver nele – os reacionários temendo-o e os revolucionários esperando-o -, o Lênin da Itália. Por muito que o apelido, em especial, então, pudesse parecer lisonjeiro, pôs de imediato um maior obstáculo para Malatesta e lhe fez temer também um perigoso desvio de ideias entre seus companheiros, pois até alguns deles tinham deixado escapar dos lábios ou da pena algumas expressões a respeito. Um anarquista italiano, procurado na América do sul, Aldo Aguzzi, teve de contar, tempo atrás, em uma conferência sua em Montevidéu, imediatamente depois da morte de Malatesta, o episódio de seu primeiro encontro com ele, que se liga diretamente ao que vou dizendo. Merece pena que o refira o mais textual que me seja possível:

“eu era então um garoto, saído há pouco tempo do partido socialista junto a todos os sócios do círculo juvenil de Voghera, com os que tínhamos fundado, fora do partido, um grupo juvenil subversivo. Não éramos anarquistas, mas sim algo semelhante ao que são ainda muitos comunistas, isto é, adversários dos reformistas e entusiastas da Rússia. Me acreditava já “quase anarquista”, mas na verdade não sabia senão muito pouco de anarquia, pois pode se dizer que a única diferença que via entre um anarquista e um socialista, era que o primeiro quer a violência e o outro, não. Era necessário dizer isso para explicar o que se passou em mim”.

A princípios de 1920, veio a Voghera, chamado pelo grupo anarquista local, Errico Malatesta com outros companheiros seus (Borghi, D’Andrea etc.) Malatesta falou num salão das escolas de fundamental. Me pediu que lhe apresentasse e eu o apresentei saudando-o como o Lênin da Itália, o qual, superando os socialistas, nos conduziria à revolução, como na Rússia. Depois da minha fala subiu na tribuna, agradeceu ao público que não parava de aclamá-lo… com o título que eu lhe tinha delegado e, depois de ter tratado de muitas outras coisas, num certo ponto começou a falar da definição que eu tinha feito dele. Na verdade não me tratou mal, inclusive me fez algum cumprimento; mas explicou que não podia, não queria, nem devia ser um Lenin. Em resumo, pelo que posso resumir a doze anos de distância, tendo em conta também minha confusão naquele momento, eis aqui o que disse:

O rapaz que me apresentou deve ser sincero e entusiasta e talvez acreditou me causar prazer dizendo que sou o Lênin de vocês. Acho que não é anarquista, como não o são seguramente os que acolheram seu grito. Ele e vocês são revolucionários, compreendem que os velhos métodos reformistas não funcionam mais, talvez tenham perdido a fé em seus chefes socialistas, e então buscam um homem que inspire confiança e os levem à revolução. Muito obrigado pela confiança, mas estão enganados. Tenho todo o desejo de lhes fazer bem e também a mim, mas sou um homem como todos os demais, e se me convertesse em seu novo chefe, não seria melhor que aqueles que vocês agora repudiam. Todos os chefes são iguais, e, se não fazem o que vocês desejam, não é sempre porque não querem, mas também porque não podem. Tratando-se também da revolução, não é um homem que pode fazê-la: devemos fazê-la todos juntos.

“Eu sou anarquista, não quero obedecer, mas, sobretudo não posso mandar. Se me transformar em seu Lênin, como deseja aquele rapaz, os levarei ao sacrifício, me farei seu amo, seu tirano; trairei minha fé, porque não se faria a anarquia, e lhes trairia, porque com uma ditadura se cansariam de mim, e eu, transformado em ambicioso e talvez convencido de cumprir um dever, me rodearia de policiais, de burocratas, de parasitas, e daria vida a uma nova casta de opressores e de privilegiados pela qual seriam explorados e humilhados como são hoje pelo governo e pela burguesia”.

Lembro de que Malatesta disse também: “se realmente gostam de mim, não têm que desejar que me torne seu tirano”. Mas muitos detalhes e frases me escapam agora. Depois explicou como se devia fazer a revolução. Lembro entre outras coisas que falou de “ocupar as fábricas”, de armamento do povo, de constituição de núcleos armados, etc., se expressando com calma, com mais calma que os próprios reformistas do lugar… Pra falar a verdade, o público ficou um tanto desiludido (e eu também um pouco) porque Malatesta não respondia do modo que se esperava. Mas o fato é que, depois daquela conferência, eu tinha compreendido o que era a anarquia e o que querem os anarquistas, e me tornei um deles…

Este episódio, semelhante a tantos outros – repito que por um instante a lenda do “Lênin da Itália” teve curso inclusive entre alguns que tinham sido e se acreditavam anarquista -, mostra muito bem o equívoco originado pela incompreensão da personalidade e das ideias daqueles que estavam fora do ambiente mais estritamente seu. Este erro, pela força do contraste, levou muitos de uma incompreensão à incompreensão oposta. Quando finalmente Malatesta conseguiu fazer compreender o diferente que era do que tantos acreditavam, por um lado os reacionários e os inimigos de má fé viram no Malatesta real uma ficção e o atacaram com violência inaudita e autoritarismos e os amantes da violência pela violência, os bolchevistas e os bolchevizantes, o achavam mudado e viram nele, como já dissemos, um Tolstoiano. A imprensa comunista Bolchevista, que em um primeiro momento o tinha coberto de flores, acabou com sua habitual fraseologia esteriotipada falando dele como um contra-revolucionário, pequeno-burguês etc.

No entanto, Malatesta era sempre o mesmo. Se havia um homem na Itália que podia, depois de 50 anos de luta constante, repetir o elogio do poeta Giuseppe Giusti: “não me curvei, nem vacilei”, era ele. Suas palavras dos comícios de 1920 eram as mesmas de toda sua propaganda passada desde o ano 1872. Aquele “pequeno-burguês” tinha combatido meio século à burguesia pequena e grande, e tinha ganhado sempre sua vida como operário com o suor de sua testa. Aquele velho “contra-revolucionário” não tinha feito outra coisa desde criança que não propagar e preparar a revolução. Aquele “tolstoiano” tinha sido e continuava sendo o predicador de todas as rebeldias, convidava os operários para ocupar as fábricas e os camponeses as terras, incitava “com calma” ao povo a se armar e aos revolucionários a prepararem as bandas armadas, e (hoje que morreu se pode dizer) onde pôde, até o último momento, não se limitava a incitar aos outros, mas punha ele mesmo a mão na massa, não poupando aos voluntários nem sua ajuda, nem sua participação direta.